Publicado em: 18/02/2022

Se tem uma coisa que todo jornalista recorda bem é a primeira reportagem em que viu seu nome publicado, em jornal, revista ou nos créditos de alguma mídia eletrônica. Vá lá que hoje qualquer um pode ter seu espaço nas redes sociais, falar sobre tudo ou nada –mas acreditem, influencers, saber que o que você diz ou escreve está sendo levado a milhares de pessoas, não por um impulsionamento pago para afagar logaritmos, mas por um veículo que apostou em sua capacidade profissional e até lhe remunera para isso, tem um gostinho de vitória. É assim, quase como chegar ao final daquela trilha difícil e soltar um delicioso e esbaforido “Ufa!”, antes de respirar fundo e pegar o caminho de volta. Mas, afinal, por que falo aqui de reminiscências que aparentemente tão pouco têm a ver com o tema deste blog? Acontece que o tema hoje é o Parque Caminhos do Mar, nome oficial desde o ano passado de uma área de 274 hectares que inclui a Estrada Velha de Santos. Aquela mesma estrada em cujas curvas Roberto Carlos tentava esquecer um amor que desaparecera pelo retrovisor de seu carro lá em 1969. A estrada cujo abandono foi tema da primeira reportagem que esta blogueira assinou na vida, em 28 de abril de 1978. É, falamos de história.
E é história que se respira ao longo dos 8 quilômetros da trilha liberada pela Estrada Velha, concedida desde junho de 2021 à empresa Parquetur para os próximos 30 anos. A empresa tem a responsabilidade de restaurar os nove monumentos construídos em 1922 para celebrar o centenário da Independência do Brasil, e de administrar a visitação dessa que foi a primeira estrada construída em concreto na América Latina, em 1920. Para quem quer desfrutar de uma trilha na natureza sem se lambuzar de lama, a Estrada Velha de Santos é uma boa pedida. Primeiro, porque é um percurso que pode ser percorrido quase integralmente em cima de um calçamento regular. Segundo, porque o visitante menos acostumado com grandes jornadas pode contratar a volta ao ponto de partida (que pode ser o acesso por São Bernardo do Campo, no Alto da Serra, ou por Cubatão, no Cruzeiro Quinhentista) de van, economizando, assim, as pernas em metade do trajeto. A exceção à modernidade são os trechos da Calçada do Lorena, marco mais antigo do conjunto, e parte imperdível do trajeto para amantes de trilhas. É a única parte que apresenta algum pequeno sufoco ao caminhante –mas nada que um tênis fechado não resolva e um bom repelente não recomende. Afinal, estamos falando do que é considerado o maior corredor biológico da Mata Atlântica, rodeado por mais de 1.200 tipos de plantas e 1.361 espécies de animais identificadas. Boa parte dessa bicharada, atenção, é formada por insetos. Foi pela Calçada do Lorena, caminho de terra e pedras escorregadias aberto em 1792 pelo então governador de São Paulo Bernardo José de Lorena (1788-1797), que Dom Pedro I sacolejou a caminho do Planalto antes de proclamar a Independência do Brasil, em 1822. Mais tarde, em 1841, foi aberto o traçado atual da via, então chamada de Estrada da Maioridade, em homenagem à, claro, maioridade de Dom Pedro II. Ela ligaria o porto de Santos à cidade de São Paulo até 1947, quando foi inaugurada a Via Anchieta, e funcionou como estrada secundária até 1985, quando foi fechada ao tráfego de veículos. Desde então, serviu até de canteiro de obras e acesso emergencial para a construção da segunda pista da rodovia dos Imigrantes. De volta a seu status de rota histórica, entre os monumentos que merecem uma parada do visitante, a maioria ainda passando pelo processo de restauração previsto no edital de concessão, estão, além do Padrão do Lorena, o Pouso de Paranapiacaba (do tupi “lugar de onde se vê o mar”), o Belvedere Circular, onde se cruzam a Estrada Velha e a Calçada do Lorena, e o Rancho da Maioridade. Para o futuro, a concessionária prevê a instalação de banheiros e restaurantes por ali —mas, por enquanto, água e banheiros, só mesmo nos dois postos de acesso ao parque, nas duas pontas do percurso, que contam com lanchonetes. O ideal é, assim, levar sua própria água. Um boné também vai bem, lembrando que, histórica ou não, aquilo ainda é uma estrada: a sombra é pouca e a luz, refletida no pavimento, não poupa o caminhante na maior parte do trajeto. Destaca-se ainda no conjunto o mirante da Curva do Uau. De lá, num dia claro, pode-se ver as cidades de Santos, São Vicente, Cubatão e Praia Grande. O “Uau!” é mesmo inevitável. Ah, sim, esqueci de comentar qual era o título da reportagem de que falava lá no começo. E era “Os monumentos da Estrada Velha caindo aos pedaços”. Quarenta e quatro anos depois, eles ainda estão à espera de um final feliz, agora prometido pela Parquetur até abril de 2023. A história do Brasil agradece.

Serviço

Horário de funcionamento: de quarta a domingo, e aos feriados, das 8h às 17h Ingressos: R$ 40 (quartas e quintas-feiras) e R$ 50 (sextas, sábados e domingos), podem ser adquiridos no local de acesso ou pelo site https://caminhosdomar.com.br. Estudantes e professores pagam meia entrada. Visitas de grupos e escolas podem ser agendadas junto à administração do parque, pelo WhatasApp 11-97279-5616 Acessos: Portaria de entrada por São Bernardo do Campo: SP-148 Estrada Caminho do Mar, Km 42 – Alto da Serra – São Bernardo do Campo/ SP Portaria de entrada por Cubatão: SP-148 Estrada Caminho do Mar, Km 50 – Cruzeiro Quinhentista – Cubatão/SP

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Fonte: https://isnportal.com.br/editorias/esporte/2022/02/18/um-caminho-suave-de-olho-na-nossa-historia